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Quem são as três mulheres transformando o horizonte de BH e a arte de pública do Brasil

Janaina Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni são os nomes por trás do CURA - Circuito Urbano de Arte

Quando um dos principais festivais de arte urbana do país, o CURA - Circuito Urbano de Arte, era somente uma ideia, havia o desejo de colocar Belo Horizonte no mapa mundial da arte pública. Da sua primeira edição, em 2017, para cá, a capital mineira conheceu o primeiro mirante de arte urbana do mundo, hoje com quase duas dezenas de empenas, pintadas por artistas — mulheres e homens — de diversas regiões do Brasil e do mundo, numa proposta que aproxima a arte e o público, que envolve toda a cena e expande fronteiras e supostas hierarquias entre o graffiti, o muralismo, a arte de letra, o grapixo. 

O CURA é concebido e gestado por mulheres que, em cada edição, pelo menos uma estava grávida ou puérpera. Nesse encontro de forças e vivências que transformou BH visualmente, existe também a vontade de conceber uma ocupação do espaço público por meio da arte e da cultura que pense a cidade. O desafio é sempre grande, mas as idealizadoras Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni trazem consigo todo um repertório de modos de criar, modos de pensar e modos de conviver que consideram a escuta, o dissenso, a partilha, o ser coletivo. Por isso, o CURA não se encerra em 15 mil metros de pinturas; os territórios que ele cobre são muito maiores.

E também o CURA não é o mesmo desde o início, assim como suas idealizadoras, que ao longo de 5 edições viveram gestações e se tornaram mães, numa jornada dupla — pessoal e profissional — de transformação. Esse exercício de propor, aprender e amadurecer se reflete, por exemplo, na escolha por uma curadoria descentrada, que se aprofunda em um Brasil que não é somente urbano e sudestino. Apesar de na cidade, o CURA também dinamiza saberes não urbanos e não ocidentais, trazendo artistas com modos, tecnologias e formas de fazer e pensar diversos, inserindo na cidade vozes que apontam caminhos. 

“Crescemos juntas, o CURA e nós três. E certamente o amadurecimento do CURA é um reflexo do nosso próprio amadurecimento enquanto mulheres que se transformam em mães no meio do caminho, mulheres que vivem, vêem e escutam o que está rolando em seu entorno. Aprendemos a como nos tornar aliadas aos movimentos artísticos antirracistas e a nos desconstruir em diversos âmbitos, buscando estratégias de descolonização das nossas mentes e atitudes. Vimos que o movimento é uma constante e sempre estaremos nesse processo de amadurecer”, explica Priscila Amoni.  

Por isso, não é ao acaso que as empenas mais altas da América Latina pintadas por mulheres sejam no CURA, assim como a maior obra de arte pública do mundo realizada por uma artista indígena e a maior coleção de murais feitos por mulheres do mundo. Essas obras trazem consigo saberes, técnicas, iconografias e repertórios que, ao mesmo tempo, acrescentam e problematizam circuitos artísticos hegemônicos. E, como imagens, elas se expandem, falam ao mundo, o significam e o transformam. 

O CURA faz e se faz modificando seu entorno: desde o início, pensa e coloca em ação a paridade de gênero, seja entre os/as artistas participantes, seja entre a equipe. Nele, há condições de trabalho para mulheres com filhos, assim como uma estrutura feminina e feminista de produção que atua para mais gente ocupar espaços antes negados. 

O CURA é hoje o festival de maior impacto do Brasil porque é um agente vivo. Depois que terminam os dias de evento, ele continua e se amplia, integrado à cidade. O CURA alarga os espaços para caber mais gente.

 

Sobre Janaína, Juliana e Priscila

Conhecer um pouco da história de vida das três mulheres é entender um pouco das raízes do festival e porque ele está hoje na vanguarda no país. 

Janaína Macruz traz do berço a política. Filha de militantes, cresceu na região do Araguaia, onde seu pai foi prefeito de uma pequena municipalidade. Apesar de formada em engenharia de produção pela UFMG, foi nos movimentos culturais e no ativismo onde se encontrou, sendo produtora cultural há mais de uma década. É uma das fundadoras do Circuito Urbano de Arte (CURA) e Pública Agência de Arte e mãe de Mano.

Já Juliana Flores começou no jornalismo, mas logo empreendeu na cultura. Fundou a editora Aletria com sua mãe e sócia Rosana Mont’Alverne (2009), trabalhando como coordenadora editorial e gestora de projetos literários. Em 2017 fundou a Pública Agência de Arte com Janaina Macruz, onde desenvolve outros projetos de arte pública. Paralelamente administra a carreira do pintor mineiro e seu marido Thiago Mazza. É mãe do José, da Rita e do Francisco, seu 1º filho, que já virou anjinho.

Priscila Amoni é a artista do trio e um dos principais nomes do muralismo de Minas Gerais, com murais em cidades do Brasil e do mundo, como Paris, Rio de Janeiro, São Paulo Começou a pintar telas em 2008, mas é em 2013 quando seu trabalho ganha um novo sentido, ocupando os espaços públicos e ganhando os grandes formatos. É também mãe do Evo. 

 Sobre o Cura 2021

O festival se despede da Rua Sapucaí e parte para a Praça Raul Soares, uma das referências de Belo Horizonte, encruzilhada de diversos caminhos, afetos, culturas e experiências. 

Quem nos conduz até lá são as águas da avenida Amazonas. Em suas margens, encontramos a “Selva Mãe do Rio Menino”, de Daiara Tukano; a primeira empena pintada por uma artista indígena no mundo, realizada no festival de 2020. “Pedimos licença e a benção para, então, desaguar nesse novo território, rico em história e memória: uma praça-circular, local de travessias e atravessamentos. Queremos mergulhar nesse lugar para nos conectarmos à vida que ali pulsa, ontem e hoje, no asfalto, edifícios, comércio, bares, igrejas e inferninhos. Queremos abrir um portal, criar dimensões, adentrar outros mundos dentro do nosso próprio mundo, conectar com outros seres e existências, alterar o ritmo da vida e do cotidiano” conta Priscila Amoni. Se o mirante da Sapucaí nos convoca a ver, na Praça Raul Soares incorpora também o ser visto. Na praça, o público estará no centro e as novas empenas – 3 no total - serão como entidades, que nos olham e nos guardam.

 Sobre o novo território 

A Praça Raul Soares tem uma característica que a torna única na cidade: seu piso com motivo marajoara, povo indígena considerado extinto, mas que segue vivo em seus descendentes.

No centro da praça está a fonte, cujo contorno nos remete à imagem da Chakana, a cruz Inca, povo originário do Peru, país onde é a foz do rio Amazonas. Ela possui doze pontos, cada um dos quais divididos em terços que representam três mundos: o mundo inferior, que é o mundo dos mortos; o mundo que vivemos, que é o mundo dos vivos; e o mundo superior, que é o mundo dos espíritos. Ao ler os signos deste novo território, compreendemos ainda mais o que guiou a curadoria desta edição. 

Esta mesma praça que guarda a cultura dos povos originários do rio Amazonas é considerada o centro geográfico, o marco zero de BH, e por ela cruzam avenidas que conectam as regiões oeste e leste, central e sul da cidade. Mas, para além das travessias, a Praça Raul Soares é, sobretudo, um lugar de encontros de pessoas e de histórias, é lugar de toda a gente. 

Sobre o Cura

O Circuito Urbano de Arte realizou sua quinta edição em 2020, completando 18 obras de arte em fachadas e empenas, sendo 14 na região do hipercentro da capital mineira e quatro na região da Lagoinha, formando, assim, a maior coleção de arte mural em grande escala já feita por um único festival brasileiro. O CURA também presenteou BH com o primeiro e, até então único, Mirante de Arte Urbana do mundo. Todas as pinturas podem ser contempladas da Rua Sapucaí.

Foto:  Thiago Souza

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